sábado, 17 de novembro de 2018

A venda

Seu João decidiu abrir a venda no feriado. "Que conversa é essa de folga", agitava. É por isso que o país não vai pra frente - bradava - orgulhoso. Pois aí seu João passou o dia aberto. O funcionário, Júniu, que veio do interior e teve a sorte de conseguir a vaga na venda de Seu João chegou antes de abrir. Feliz. Seu João já disse logo que as lei mudou e não ia pagar por feriado. É dia normal de trabalho. Pois bem. Aí seu João passou o dia aberto. Vendeu uma sardinha e alguns bombons pra mulecada que achou dinheiro vadio nas carteiras dos ébrios pais. Fim de mês a conta da luz veio pesada. Seu João disse que era muita roupa passada no ferro. A mulher disse que não. Que foi o dia que você deixou a venda aberta sem ter pra quem vender. 


Juljan Lima Palmeira

sexta-feira, 10 de novembro de 2017


Doença

No desespero dos dias
De um futuro sem cores
Um Homem se diz sincero
Um Homem franco atira dores
Dores suas, sombrias flores
Projéteis unicolores
Plenos em sua lacuna de sabores
Disparos de ódio, de tormento, de frustração
Criados pela inefável ausência da Visão
(uma falha restritiva, constitutiva do Mal
filha da viciosa e sempre rutilante Ilusão
da certeza, que o põe em um imundo pedestal).

Atingido pelos disparos
outro homem caminhava
pelos destroços da sua alma
com a pueril inocência do escritor moderno
Este é o homem que quer apenas ser
apesar de sua anuência
com o fato de que
esta é a terra do parecer
do antissaber
dos deuses, dos heróis, dos imortais laureados,
os quais, para seu cinismo doentio,
encontram servos que jantem em seu desprezível brio.

Não importam ao voraz atirador
 - em sua diabólica pureza divina - 
as dores do homem fulminado.
Quer vê-lo a seus pés,
rastejando como um cão moribundo
Os estilhaços acertam minha consciência vã
Enquanto contemplo as belezas de um mundo plural
Diverso, Multicolorido, Cosmopolita, Transcendental,
travado em pequenos visores
necessários utilitários
ainda que limitadores...

Juljan Lima Palmeira – 10/11/17

Fonte da imagem:
14/08/15 – Acessado em: 10/11/17

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sobre este blog,sobre o autor e sobre os prazeres que dão sentido à vida

Este blog já teve outros nomes. Cada um deles dependia do espírito do autor em épocas distintas. Uma vez que ele - o blog - depende do espírito do autor, permitam-me que eu o apresente: eu sou Juljan. Para mim não há rótulo mais preciso, embora ele não possa ser bem compreendido por aqueles que não me conhecem pessoalmente. Mas é isso. Sou Juljan e no decorrer do texto acredito que haverá uma ideia de quem Juljan é. Caso a imagem seja difusa, não se preocupe: nenhum de nós é nítido.
No primeiro momento do blog, chamei-o de VOZ E VIOLÃO. Publicava aqui minhas peripécias musicais colhidas ao lado de meu velho PC. Algumas delas estão em um canal que tenho no YOU TUBE – já não atualizado há algum tempo.
Depois, chamei-o FEBRE DE BOLA E ETC.. Foi na época em que a fantástica tecnologia do PS3 devolveu minha paixão de menino pelo futebol. O título também se referia a um dos melhores livros que li, do inglês Nick Hornby - torcedor do londrino Arsenal. Aquela nova tecnologia, que colocava meus times de futebol de botão em um campo virtual com movimentos para mim perfeitos, era fantástica - principalmente fantástica para um cara de 36 anos (8 anos atrás) que passara a adolescência sem se preocupar com jogos eletrônicos (a vida real – ou algo próximo para mim do real - sempre me agradou mais). Foi um choque fascinante e necessariamente inebriante.
Por fim, chamei-o EFEITO DE SIGNIFICADO, título que permanece e será mantido uma vez que tudo tem que ter um nome e uma definição. Escolhi a imagem do Colosso de Rodes, uma das maravilhas da antiguidade representada em uma imagem renascentista do Deus Sol segurando a “Luz que os céus inflama” – sonhada por Augusto dos Anjos. O título atual e permanente do blog, vem de uma frase de Jacques Lacan sobre o significante no inconsciente. Do ponto de vista de seu estudo psicanalítico, o significante tem EFEITO DE SIGNIFICADO. Sou graduado em Letras e, em Linguística, também há um significante o qual – apesar de ser distinto do significante psicanalítico lacaniano – também produz efeitos de significado.
Hoje, depois de algum tempo, reativei o blog. Talvez esteja eu atrasado em face das constantes e velozes atualizações da modernidade do assustador século XXI, mas estou vivendo uma fase estranha para mim e encontrei algum abrigo nas palavras novamente. Fazia uns 25 anos que isso não me acontecia e me assustei. Me assustei porque vivi uma vida de trabalho por dinheiro, pagamento de contas, finais de semana relâmpago e calendários com feriados desejados e ansiosamente aguardados. Estilo Marina Colasanti no célebre “Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia”. Não que meu trabalho como professor não me agradasse ou satisfizesse, mas quando a gente é criança não deseja só trabalhar. Quando somos crianças e perguntam o que seremos quando crescermos, respondemos pensando no prazer, na alegria, na festa que só existe na alma de uma criança. Ninguém, quando criança, deseja crescer para ter medo de desemprego, medo do boleto vencido, de não ser o que o mundo quer que se seja.
Dia desses, nas redes sociais do HOJE (agora tudo é HOJE), li uma frase do Nietzsche que em seus significantes linguísticos dizia algo assim: O homem que não possui dois terços do dia para si mesmo, para seu prazer, é um escravo. Eu sei que ninguém em sã consciência diria que não sente prazer em seu trabalho porque isso seria admitir um tipo de derrota – algo que pretendo abordar em algum texto no futuro – mas há crianças que crescem para SER, outras, para parecer. Pois a tal frase do Nietzsche produziu neste sujeito Juljan um efeito de significado há muito inerte, deixado de lado. Mas agora, graças a um momento inesperado – que me assustou também por ter passado tantos anos vivendo uma programação – adequada ao desumanizante século XXI (irmão mais velho e mais feio do anterior) – estou de volta ao prazer de escrever.
Outubro desafinado, que publiquei no último dia 31 foi o prelúdio de um reinício. O reinício de uma nova busca pela epifania – a qual está dentro de cada um de nós, mas que, se não lhe dermos o tempo do espírito (muito distinto do tempo das contas e boletos) não surge de verdade, ou sai feia com bordões e “hashtags” que por falarem pouco falam muito dos robôs em que estão nos transformando.
Que venham os significantes produtores de EFEITO DE SIGNIFICADO.

Juljan Lima Palmeira – 03/11/2017 (15 anos de meu sobrinho Pedro)






terça-feira, 31 de outubro de 2017

OUTUBRO DESAFINADO


O Sol
Indeciso
beija os telhados
arames, motosserras
fogos
inesquecíveis
de onde vislumbro
a realidade
intangível
impiedosa
correm rios de sangue
por artérias esclerosadas
e o sol intimida-se
dá vez à Escuridão
das Nuvens de um outubro
Desafinado
Fecho os olhos
odiento
sigo a estrada da perdição
farto de sorrisos inconscientes
farto de amores condicionados
farto de não poder.
Ser o quê?
Galileu ou Barrabás?
Ouço os acordes
de uma existência
que perdeu a fé em si mesma
mas beijam-na
fazem-lhe carícias
e juras de necessidade
Para que dela necessitam?
Para não sofrerem?
Por que ela tem de sofrer
Por dela necessitarem?
Barrabás ou Galileu?
Samurai pretendo ser...

Juljan Lima Palmeira – 23/10/17





sexta-feira, 15 de julho de 2016

O passatempo dos doentes mentais

Eu gosto de ver
Seu sorriso 
De manhã 
E me sinto 
Um deus 
Quando estou escrevendo
Talvez você diga
Que eu sou radical
Mas ninguém pode deter
As ondas do mar
Eu sonhei
Com uma mulher
De cabelos loiros
Ela me disse
Que gostava
Do que via
Apesar de ela
Não estar olhando para mim
Acho que isso
É algo legal de se dizer
Às vezes
Eu acho que estou ficando louco
E até acho normais
As imagens
Na televisão
Talvez
Se eu disser
Que já li um livro
Seja bom
Talvez
Eu seja mesmo
Um doente mental
Quando saio na rua
Todos me olham estranho
E alguém vai dizer
Que isso é paranoia
Na verdade
As ruas
Não são
Para
As pessoas normais
Na verdade
Pensar
É o passatempo
Dos doentes mentais


Juljan
Escrita lá pelo final dos 1990.
A lua e a água gelada ainda comovem, Carlos. Gauchemo-nos, camarada.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fios de janeiro

E então o teu rosto é o resto que me faltava encontrar:
Roto em desespero esperei-te abrigar.
Te prendi com os meus fios de janeiro;
Me tornei teu espelho sem fim;
Os teus lábios alados,
Calados, afligem,
Me fazem sonhar.
Fui além do que dizem meus sonhos:
Encravei meu orgulho em teus olhos
(When will you be alone again?)
Nos teus pés que te fazem voar
Nos teus lábios que escondem o mar
Mergulhei com meu medo de errar

Juljan - em algum momento entre 2013 e 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A verdade liberta sim, mas tem que ser a “sua” verdade

           Aceitar você como você é. Muito difícil em uma época na qual as padronizações estão cada vez mais em voga.
            É possível que cada um tenha a sua verdade? Acredito que sim, desde que suas verdades não sejam ofensivas às verdades do outro. E mesmo que sua verdade surja de um bilhão de fios textuais, históricos, sociais, ideológicos e todo o blá-blá-blá que já conhecemos (por mais real e importante que seja).
            Estamos cada vez mais imergidos em uma espécie de “verdade coletiva”, algo que me lembra “Subdivisions”, do Rush (be cool or be cast out). Os grupos são definidos por comportamentos ideais e todos os que fazem parte de um grupo específico devem se enquadrar no “ideal” (Nada mais romântico, não acham?).
            Um ponto intrigante é o seguinte: existe vida fora do ideal. Obviamente, algumas práticas são obrigatórias, impostas pela necessidade de sobrevivência. Mesmo nessas práticas, cada um tem o direito de escolher seu comportamento subjetivo (repito: desde que não afete o outro).
            Encontrar o seu lugar no mundo, peneirando as verdades coletivas e adequando-as à sua existência enquanto sujeito e objeto da realidade pode ser a chave para uma vida mais serena.
            Haja saúde.



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Respeito


            A palavra “respeito” em inglês (respect) é utilizada por rappers americanos ao final de seus versos que falam sobre as agruras de uma vida de exclusão social e preconceito. Talvez uma das palavras mais em falta no vocabulário da humanidade, em toda e qualquer língua, há muito tempo. Os atuais protestos que ocorrem em todo o Brasil são uma prova disso.
            Não é difícil encontrar pessoas que recriminem os protestos e paralisações. Uns vem com aquela conversa de que não passam de “protestos políticos” como se isso fosse um demérito. Como assim? Eles são políticos mesmo. É a política brasileira e a sua prática degradante e excludente que fez com que as coisas chegassem a esse ponto. De fato, as massas excluídas demoraram tempo demais para soltar seu grito de revolta. Outros dizem ou comportam-se como se fossem apenas manifestações e paralisações orquestradas por preguiçosos e vagabundos, que não querem trabalhar. Ora, é melhor você ir ao seu trabalho e voltar normalmente à sua casa ou enfrentar cassetetes e bombas de “efeito moral”?
            É óbvio que devemos considerar de onde vêm as críticas aos movimentos sociais: elas partem de uma elite econômica e “intelectual”, acomodada em sua vida de muitas oportunidades e, logicamente, satisfeita com a situação em que se encontra. Só não entendo qual é a glória em ser vencedor em uma corrida tão desigual, em que os membros dessa elite triste e vergonhosa pilotam um “Red Bull” do Vettel e o resto do povo vem montado em um burrico velho e maltratado. É típico do déspota querer ser o rei em uma terra devastada. Ainda se fosse uma elite produtora de pensadores que se ocupassem em melhorar as condições do seu país como ocorre em nações desenvolvidas da Europa (que a elite daqui tanto idolatra), mas não: é um grupinho de gente pequena e mesquinha, que quer ter e ser apenas para pisar o seu semelhante, vomitando sua erudição e seu poder. Bater em quem é fraco é muito bom. Queria ver se o povo tivesse as mesmas chances que vocês, gente sebosa.
            Há uma fala muito interessante no texto de um dos livros da religião trazida à América e imposta pelos europeus: o personagem pede a seus seguidores que amem seu próximo como a si mesmos. Seja lá quem disse, sempre foi uma frase que me fascinou. É algo que sempre procuro fazer e digo a vocês: é muito difícil. Procuro pelo menos entender e respeitar a todos, desde que seu comportamento não seja agressivo para com o outro, como é caso da postura assumida pela elite supracitada.
            Todos aqueles que estão sendo lesados em seus direitos básicos devem prosseguir em suas manifestações e exigir as mesmas condições de crescimento que são dadas aos grupinhos de uma elitizinha medíocre e que nada tem feito para o crescimento do seu país. Respeito, gente ruim, é bom e o povo o quer.
            Respect!

Foto: google images

Juljan Lima Palmeira
11/07/2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

          Muitos não sonharam. Eu sonhei. Tinha 12 anos e havia uma novela que tinha como protagonista um jogador de futebol, bonitão, pegador e cujo tema nas cenas de aventura era a música do Indiana Jones. Antes disso, por volta dos 9 anos, a minha brincadeira preferida era jogar bola. E veio a Copa do Mundo de 82, e o Brasil tinha um time de sonho, e eu fiquei fascinado. Quando sozinho, jogava botão no chão do quarto da minha mãe. Tinha quatro times: Palmeiras, Vasco, Fluminense e Atlético Mineiro. Quando não estava sozinho com os meus botões, ficava jogando uma bolinha de tênis na parede e me jogando em cima da cama para agarrá-la como um grande goleiro. Os nomes da época eram Leão, João Leite, Waldir Peres  Narrava jogadas e gols do meu Palmeiras recheado de craques como Maradona, Zico, Sócrates. Na hora do banho, meus amigos imaginários eram os objetos que ganhavam vida: o chuveiro, o rodo, o espelho, os sabonetes, xampus, as cortinas e até os azulejos. Eu era o técnico e eles os jogadores. Passava-lhes instruções, discutia táticas, comentávamos os jogos e comemorávamos as vitórias. Mas eu não era bom com a bola nos pés. Por isso, fui um goleiro razoável e um zagueiro grosso, mas inteligente, que sabia passar a bola e encontrar os companheiros bons de bola em boas posições. Depois veio o handebol e encontrei um esporte em que eu era bom. Acredito que teria sido um bom zagueiro se não tivesse trocado os pés pelas mãos.
            Hoje sou um jogador frustrado, mas feliz, porque se alegra com as jogadas e os gols de craques da vida real e da vida virtual. Mas sonhei. E em algum lugar da minha imaginação de criança que ainda vive existe um jogador de futebol.
            Atualmente muitas crianças pobres sonham em tirar seus pais de uma vida difícil através dos milhões do futebol. Não sabem que eles – os milhões – não são para todos. Mas antes de haver os milhões, eram só crianças que queriam driblar, que imitavam os urros da torcida em suas jogadas, marcavam gols e sentiam a glória de ser um bípede que consegue dominar uma esfera opaca ou colorida em seus pés. Além de termos conquistado o direito natural de nos postarmos eretos, somos capazes de correr e controlar uma bola em nossos pés e fazer com ela uma série de malabarismos: numa visão poética, o futebol é a celebração do ser bípede. Afastado dos milhões se pode ver a poesia do sonho. Os milhões destroem o sonho e é triste ver que muitas pessoas se tornaram céticas e perderam sua visão de poesia e beleza por conta dos tais milhões que, quando vamos ver, chegam a poucos mil e nos contentamos em ter conseguido os trocados que nos mantêm. Não podemos perder o sonho.
            Rubem Alves escreveu em uma de suas belas crônicas que o sonho é o carinho da alma. Concordo integralmente. No sonho somos o que quisermos e enchemos nossos espíritos de gozo. O gozo que não serve para nada além de alimentar o prazer e a necessidade de sonharmos mais, muito além do que qualquer trocado. É preciso respeitar o sonho de cada um. Não respeitar é a mesma coisa que querer impor suas verdades aos outros. Cada um de nós tem suas verdades, faz suas escolhas e deve aprender a viver com elas. Nada de apontar o dedo para o outro e dizer com desdém e sarcasmo: “Não passa de um sonhador”. Acredito que quem age assim nunca teve a chance de sonhar. E no mundo em que vivemos é muito fácil existir quem não teve o prazer sonhar. Mas, se a vida não te deu essa oportunidade, se você teve uma infância difícil e hoje graças a seu esforço conquistou seu lugar no mundo, sonhe. Não em ter uma casa, um carro ou um emprego. Sonhe em ser o que você não pôde ser quando era criança. Sonhe em voar, conquistar o espaço, conduzir o E.T. na cestinha da sua bicicleta. Assim, quando estiver dentro do sonho, você entenderá o sonhador e poderemos nos unir em nossos sonhos celebrando nossa semelhança na diferença. Sim, porque o fato de sermos sonhadores não nos fará iguais. Permaneceremos diferentes em tudo, exceto em uma coisa: o respeito à nossa capacidade de sonhar e acariciar nossas almas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O corte final e o filho de Ogum


             Sempre há poesia. Ela surge em todos os lugares. Não cabe ao sujeito falante que se submete à linguagem determinar seu surgimento ou sua ocultação. A língua é essencialmente poética e a sua relação com as diversas situações de comunicação acentua seu caráter metafórico e metonímico.
            Quando Roger Waters compôs a canção “The final cut” ele tinha a intenção de produzir efeitos estéticos e estilísticos típicos do gênero. O compositor, o poeta, o escritor têm uma ideia dos efeitos que pretendem atingir com seus textos – embora possa haver outros efeitos para eles inesperados: a linguagem da poesia em conjunção com outros fatores pode gerar sentidos que ninguém pode prever. Especialmente o sujeito produtor de tais gêneros textuais. No texto de Waters, uma letra de música que fala sobre perdas pessoais e sentimentais, surge o seguinte pensamento – expresso aqui em uma tradução livre: “longe de voar alto em claros céus azuis, despenco em uma espiral para o buraco no chão em que me escondo”. Um belo exemplo de um texto romântico, com o egocentrismo e a negatividade característicos da geração chamada pelos críticos literários de “Geração mal do século”.
            Diogo Silva é filho de Ogum, o orixá guerreiro de uma das religiões afro. E Diogo Silva é de fato e de direito um lutador. Além disso, Digo Silva é um dos atletas brasileiros do taekwondo e participou das olimpíadas de Londres. O filho de Ogum saiu da contenda invicto, mas sem medalha: o guerreiro tem na luta a sua principal premiação. Ele luta porque nasceu para lutar.
            Entretanto, não vivemos na pureza e na poesia da existência de um guerreiro e Diogo deixa Londres como mais um dos atletas brasileiros que não obtiveram o sucesso em suas modalidades. Não perdeu nenhuma das lutas que disputou, mas foi desclassificado por decisão dos juízes. O guerreiro volta para o Brasil para passar mais quatro anos sem que o grande público brasileiro, “fanático por jogos olímpicos”, dê por sua falta. Em 2016, no Rio de Janeiro, todos os “fãs” do Filho de Ogum estarão de volta para prestigiá-lo e torcer por sua vitória. E para reclamar de sua falta de empenho e controle emocional em caso de derrota.
            Ferido em seu orgulho de guerreiro, Diogo apresentou seu desabafo com os olhos lacrimejantes: “agora, vou voltar para o meu buraco e terei que cavar todo o caminho de volta para topo”. Não vi nas Olimpíadas até este momento um pensamento tão adequado ao que é a realidade de um atleta brasileiro que não tem o mesmo apoio dos atletas e das modalidades mais prestigiadas. E aí que surge, inesperada, porém contundente, a poesia. Um texto com um pensamento semelhante ao de Waters ganha vida em um contexto novo, gerando significados e produzindo efeitos de sentido. O eu lírico da letra de Waters e Diogo Silva compartilham o mesmo sentimento de derrota e abandono, cada um em seu lugar, com posturas distintas: um para se esconder; o outro para cavar sua saída de volta à luz.
            Não sou fã do taekwondo e não tenho interesse em assistir a competições da maioria das modalidades olímpicas, mas respeito todos aqueles que se aventuram a praticar esportes que, no Brasil, são desprestigiados pela grande mídia e por consequência pelo grande público – no qual, obviamente, me incluo. Respeito um atleta como Diogo Silva que luta por melhores condições para seu esporte, por mais financiamento, por mais atenção. Isso mesmo. Além de praticar o taekwondo, Diogo é um militante da causa do esporte. Cavar de volta para a luz significa ter que voltar a mendigar apoio e patrocínios. Se estiver no tatame em 2016, Diogo terá chegado lá como um operário do esporte, como se definiu em entrevista à ESPN: “Tem três tipos de atleta: aquele que ganha, aquele que tem patrocínio e o operário. O operário vai sempre reclamar, discute, faz greve, briga. Quem ganha medalha, não vai falar nada. Quem tem grana, também não. Então, acho que como dentro da história do nosso país, quem está ferrado vai à luta. Quem está bem de vida não vai à luta". Talvez a profundidade desse tal buraco seja bem maior do que imaginamos.
            Faço parte do grande público, mas não tenho sua postura ingênua e arrogante. Trata-se de um público que engole a conversa de que o Brasil é o país mais poderoso do planeta e que isso deve se refletir em eventos como as Olimpíadas: devemos esmagar nossos adversários porque somos brasileiros, um povo que sobrevive às adversidades, um povo forte e lutador, com nervos de aço, que não pode se esquivar diante da possibilidade do soco. Não. Somos seres humanos falíveis como todos os outros.
            Somos falíveis ao ponto de não dar a menor atenção a esportes olímpicos a não ser em época de Olimpíada e exigir que o Brasil seja belo, forte e impávido, trazendo todas as medalhas de ouro que dispute. Trata-se de uma visão que baseia todas as análises em exceções e não em regras. Quem vence sob condições adversas é exceção. Não fosse assim, todos os brasileiros teriam sucesso, poder econômico e prestígio em nossa sociedade. Neste grupo, encontramos uma minoria que veio de camadas discriminadas e desprovidas das mínimas condições de crescimento social e cultural. Reitero, portanto, o pensamento de que exceção não é regra.
            Mas o que interessa é a poesia. O canto gritado do guerreiro filho de Ogum que diz que cavará todo seu caminho de volta, porque nasceu para lutar. Quando vier à luz novamente, já será, sem dúvida e excepcionalmente, um vencedor.

Juljan Lima Palmeira
10/08/2012
Imagem:gazeta press
            



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As Olimpíadas,o futebol e o velho sistema


           É inevitável que não haja certa comoção com as Olimpíadas, comoção esta que se amplia quando os meios de comunicação começam a criticar negativamente os atletas brasileiros que não logram êxito em suas modalidades. No esporte, a vitória e a derrota são acontecimentos muito próximos. Quando o atleta entra na arena, ele não está sozinho. Os seus adversários treinaram tanto quanto ele para disputar os jogos. Se se chegou a uma final, já se trata de um feito espetacular. Muitos outros foram deixados para trás. O ouro, a prata ou o bronze serão decididos por detalhes ínfimos, que não desmerecem os perdedores, apesar de glorificar os vencedores. Quando os jornais dizem que este ou aquele atleta decepcionou, eles falam em termos das expectativas que se criam em torno de campeões. A coisa mais difícil do campo esportivo é ser o primeiro, porque, uma vez lá, as pessoas vão querer que você fique sempre lá – enquanto há uma centena de outros atletas que querem tirá-lo daquela posição. A diferença do esporte em relação a outras áreas é que só se chega lá por mérito verdadeiro: não há conchavos ou esquemas que fazem uma menina do Piauí ser medalhista de ouro no judô. Mas agora, nas próximas edições, se ela for menos do que ouro, já surgirão as manchetes acerca da “grande decepção”. Quem compra esse tipo de ideia é tão cego quanto quem a publica.
            O esporte amador no Brasil não tem os mesmos incentivos que em países desenvolvidos. Somente atletas de ponta como César Cielo e modalidades de destaque como o voleibol recebem patrocínios elevados e boas condições de treinamento. Milhares de outros têm que sacrificar muito de suas vidas para pelo menos chegar a uma competição internacional. Caso estes cheguem a uma conquista improvável, terão acesso a condições que deveriam ser iguais para todos. Mas não se pode falar em condições iguais no capitalismo. A lógica do sistema é muito clara: se vende, financiamos; se não vende, aquele abraço.
            Algo que também sempre surge no Brasil em momentos de Olimpíada, no calor das críticas de uma mídia financiada pelos mesmos que queriam ver seus produtos vendidos por atletas de ouro, é a comparação entre o futebol e os demais esportes. Meus caros, o futebol vende. Não só no Brasil. Gera milhões para emissoras de TV e patrocinadores. É isso que interessa em um sistema capitalista. É a mesma coisa que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos com o Baseball, a NBA e o Superbowl. A diferença é que lá as universidades – na sua maioria privadas e de boa qualidade – se encarregam dos esportes olímpicos. Surgem as histórias de que o futebol tem mais dinheiro e que os jogadores de futebol recebem salários altíssimos. Acredito que não é o que pensam os jogadores de times como o Botafogo da Paraíba, do Treze, da Desportiva de Guarabira e de centenas de outros pequenos clubes do Brasil. A comparação inevitável no momento entre atletas olímpicos e futebolistas milionários pode ter como alvo Neymar, que está entre os jogadores mais bem pagos do mundo. Mas quem paga esse salário? São os governos? Não. Os governos estão gastando indevidamente o dinheiro do contribuinte na construção de estádios – isso é errado. Neymar está sendo mantido no Brasil através de uma parceria entre empresas privadas formadas pelo Santos Futebol Clube – time que defende – e grupos de investidores. Isso mesmo. Investidores. Espera-se retorno financeiro de jogadores como Neymar. Ou vocês acham que todos os comerciais nos quais ele aparece são de graça? As camisas dos times brasileiros atualmente são verdadeiros abadás de tantos patrocínios que nem sempre combinam com as cores do clube. Na França, país que vive uma recessão violenta, há poucas semanas, o clube de futebol Paris Saint Germain contratou o sueco Zlatan Ibrahimovic, o brasileiro Thiago Silva e o argentino Ezequiel Lavezzi por uma soma próxima aos 300 milhões de reais, segundo o portal de notícias R7. Então é hora de pararmos de pensar que futebol só é milionário aqui e para todos.
            Todos os atletas olímpicos merecem respeito e reconhecimento. Aqueles que têm menos apoio merecem ainda mais. Se eles “decepcionaram” a mídia, azar da mídia. Parabéns a todos os atletas que estão nos jogos olímpicos representando a si e a seus países, enfrentando adversidades, vencendo ou não. Apesar do que o sistema diz, competir é importante sim. Vencer ou perder é consequência de estar na luta.

Juljan Lima Palmeira
04/08/2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Olhos Fechados


Distante das luzes da ilusão moderna
Refaço as verdades, que me tentam vender
Em vez de moscas e de putrefação
Encontro uma luz que clama pelo brilho dos céus
Ergo os olhos então
E vejo o que não quero ser:
O homem restrito a poucas visões
(Em sua mente há grilhões?!)
Encaro este verme da atual existência
E deparo com as portas estreitas de sua mente encarcerada
Tento guiá-lo pelas largas passagens, onde campeia o amor
Mas nada consegue mover o que este mundo fossilizou
Este meu amor
Revela o que não querem ver:
O homem completo em suas paixões
(Não lhe cabem grilhões...)

Juljan Lima Palmeira – 21/06/2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

300


Off line
Virtualmente morto
É o tempo que me obriga a deixar de ser

O que é o amor
Se não o desespero de perder?
A necessidade de não ser infeliz

Nada de novo
Derrotado mais uma vez
Em um mundo de deuses e de super-heróis

Nem mesmo as valsas de Viena
Nem mesmo o colapso das funções vitais
Nada me trará de volta a quem fui

Sou empírico
Lembranças não me inebriam
A imagem do cigarro não é o mesmo que fumar

Juljan Lima Palmeira – 20/06/2012

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A simbologia dos anos que se arrastam como estrelas cadentes (para Gonzaguinha)


As melodias que envolvem meu espírito
E que me fazem brincar com os significados
Me conduzem ao meu mundo de criança
Quando sou rei
E tenho uma janela aberta para tudo que sempre quis
Vejo razão em todos os sonhos
Em planetas distantes
E sei que a vida não me transformará em não-ser
E que este é o momento de escrever aquilo que sinto
Menino falando a homens
E não poeta laureado falando a marionetes
Sei que muitas coisas me preocupam
Mas muitas outras me aliviam
Talvez a principal delas
Seja o amor que sinto por você, Minha Senhora,
Talvez seja esta a minha libertadora verdade
A verdade que me deve conduzir na volta ao mundo dos homens
Neste mundo, ainda que o infante padeça,
Sua pureza há de triunfar
Passam-se os anos
Endurecem-se os corações
Mas o menino está lá
Sobre seus castelos, senhor de seus domínios,
Suavemente ninado
Pelo Amor...

Juljan Lima Palmeira
31/05/2012